A busca do primeiro emprego na área de engenharia

Passada a emoção da colação de grau e a ressaca da festa de formatura, chegou a hora de encarar a realidade. Onde vou trabalhar?

Na verdade essa é uma pergunta que deve ter sua resposta planejada ao longo da trajetória acadêmica e não simplesmente após receber o tão esperado “canudo”.

Nos últimos anos o mercado passou por diferentes cenários no tocante a oportunidades de trabalho para profissionais de engenharia e isso é de certa forma cíclico.

As diferentes áreas de atuação, tanto relacionadas a área técnica como outras, a exemplo da financeira, abrem um grande leque de opções. Por isso é tão importante a busca de experiência e informações no período da graduação.

Aproveitar a época da graduação para realizar cursos voltados a área de sua preferência, participar de feiras, congressos e seminários, aprender um ou mais idiomas, fazer estágio e dominar o uso das diversas ferramentas computacionais, além de trazerem um diferencial para seu currículo ajudam a conhecer melhor o ambiente profissional e a definir o foco no momento da busca do emprego.

Teoricamente, quando se encerra o ciclo da graduação, todos estariam em igualdade de condições, ou seja, sem experiência profissional e com a formação básica concluída, por isso essas atividades extras são tão importantes, você cria seu diferencial além de aprimorar o foco do interesse na atuação profissional.

O foco é primeiro ponto que merece destaque. Imagine no momento da busca de uma oportunidade profissional você enviar seu currículo ou participar de um programa de trainee para uma incorporadora, um banco e um consórcio de infraestrutura. Sua formação e os requisitos destes processos estariam aderentes, porém o perfil e as expectativas pessoais são muito diferentes nos três casos.

Faça uma reflexão sobre suas expectativas, preferências e ambições. Certamente o ambiente e o escopo do trabalho do mercado financeiro não tem muita semelhança com os da obra de uma estrada. Qual deles lhe desperta maior interesse? Qual deles está de acordo com suas expectativas, preferências e ambições?

Existe uma frase que diz que quando não se sabe para onde está indo, qualquer caminho serve. Mas aí entramos no segundo ponto de destaque, a continuidade.

Provavelmente você conseguirá uma colocação profissional, mais adiante vou listar alguns caminhos para isso, mas e depois? Essa seria a oportunidade de colocar os conhecimentos em prática, ganhar experiência técnica e de relacionamento no mundo corporativo e em seguida pensar na evolução da carreira. No entanto, se sua efetivação foi resultado do acaso, onde participou de vários processos diferentes, com focos diferentes, a área de atuação foi definida pela sorte. Então, além dos objetivos que mencionei fatalmente você ainda estará avaliando se “gosta” ou não daquela área de atuação.

Misturar os momentos de atuação com avaliação pode gerar um decréscimo significativo no seu desempenho e por consequência em todo o rendimento, que por sua vez contamina sua avaliação. Esse círculo vicioso tem grande chance te de levar a insatisfação e a busca constante da “felicidade”, pois ela sempre estará na outra empresa, na outra oportunidade, no outro setor de atuação.
Assim o tempo passa, você não consegue solidificar a experiência nem definir claramente um plano de carreira.

Mas calma, não é para assustar ninguém muito menos esse cenário é uma regra, mas acho importante dar uma visão geral da linha do tempo em um caso de não muito sucesso sendo mais caracterizado pela “sobrevivência profissional“. Evidente que pode ser muito diferente disso e a boa notícia é que tudo depende exclusivamente de você.

Então, voltando ao começo, como buscar o primeiro emprego?
Seguindo 3 passos: pesquise, planeje e execute.

1. Pesquise: pesquise quais as empresas que atuam no setor que você deseja atuar. Procure tudo sobre elas, organização, políticas internas, projetos em desenvolvimento, regiões de atuação, cultura, tudo. A internet facilitou muito esse trabalho. Para escolher, você precisa conhecer.

2. Planeje: veja se as empresas que pesquisou possuem programas de estágio, de trainee, processos de seleção próprio e em que época eles acontecem. Se prepare para o momento certo e para não perder a oportunidade.

3. Execute: se inscreva nos programas de trainee ou nos processos de seleção das empresas que você escolheu (atenção para o foco). A pesquisa feita ajudará muito no momento da entrevista, onde deve mostrar com toda clareza e sinceridade o motivo de você estar participando do processo, mostrando que conhece a empresa e como será sua atuação. Faz uma enorme diferença a empresa perceber que você também a escolheu, não está ali simplesmente pelo salário ou benefícios.

Para empresas de menor porte, é valido o envio de email com uma breve carta de apresentação e o currículo. Se possuir algum amigo ou colega que atue na empresa e se puder dar uma referência, isso certamente ajuda.

Uma boa alternativa é a utilização dos sites de busca de empregos, que também auxiliam bastante. Mas o importante continua sendo não perder o foco.

A mobilidade é um trunfo importante, principalmente no início de carreira quando ainda temos um custo de vida baixo, ainda não existe uma obrigação financeira em prover a família e nossa capacidade de adaptação é elevada. É um bom momento para aceitar desafios em locais mais distantes dos grandes centros e que tendem a ter menor concorrência. A aceitação deste desafio também é visto com bons olhos pelas empresas além de geralmente proporcionar um elevado ganho de experiência profissional.

Outra possibilidade são os concursos públicos. A atuação em empresas públicas é condicionada à aprovação em concursos públicos específicos. Assim, tem-se a possibilidade de atuar em empresas como Pertrobras, CAIXA, INPI, INMETRO, etc. A dificuldade está em conseguir conciliar o momento da abertura do edital, todo o processo das provas e início efetivo com seu momento de vida profissional. Além claro, da necessidade de dedicação extra aos estudos necessários ao processo e a dificuldade devido à alta concorrência.

A mensagem principal que espero que fique é o foco e a preparação prévia, que servem não só para esse momento de busca do emprego mas para praticamente tudo na vida profissional.

Não faço ou nunca fiz estágio, e agora?

Alguns professores da graduação possuem a opinião que o aluno deve se dedicar exclusivamente aos estudos e atividades relacionadas ao mundo acadêmico durante o período da graduação, deixando a prática profissional para após a formatura.

Essa opinião possui certa coerência se for colocada da seguinte forma: como você quer trabalhar se ainda não sabe engenharia? De forma resumida e bem objetiva seria algo próximo desse conceito.

No entanto, o mercado tem mostrado que o estágio possui um papel relevante na formação do profissional não sendo apenas uma mão de obra barata ou para serviços de baixa importância, como desenhar no CAD, tirar xerox e dobrar projetos.

Acredito que o estágio possui basicamente duas funções importantes na formação profissional do futuro engenheiro: conhecer as opções de atuação como profissional; desenvolver e aprimorar habilidades comportamentais necessárias a rotina profissional.

O estágio ajuda o estudante a conhecer melhor a aplicação dos conceitos que aprende na faculdade e isso potencializa o aprendizado pois pode compreender melhor os ensinamentos passados quando aliados a aplicação prática.

O estágio é sempre uma atividade supervisionada e é função do profissional responsável pelo estagiário dar todo o suporte necessário a realização da função e que esta seja compatível com seu conhecimento e responsabilidade do cargo.

O outro fator relevante em que o estágio contribui ainda mais é em relação as habilidades comportamentais relativas ao ambiente de trabalho. Essa experiência é muito importante para uma transição de sucesso entre o estágio e o emprego. O estudante é inserido em um ambiente com responsabilidades, atribuições, metas, rotinas, hierarquias, normas, processos e tudo mais que compõe as empresas. Claro que o porte e área de atuação da empresa vão impactar no volume e complexidade deste cenário. Esta é a experiência mais importante, que desenvolve o comportamento profissional e não somente as habilidade técnicas.

E qual o momento adequado para procurar estágio? Depende, não existe regra. Já tive estagiário do 2o. período e de último período, como sendo primeiro estágio deles. Isso depende de muito fatores particulares a cada um que vão desde maturidade e interesse a necessidade financeira e disponibilidade de tempo.

De maneira geral, sem comprometer os estudo e com um horizonte de tempo razoável para acompanhar um projeto ou mesmo ter diferentes experiências, entendo como adequado a busca do primeiro estágio entre o 5o. e 7o. períodos da graduação. Mas repito, não é regra.

Aproveite bem o estágio para conhecer melhor a profissão, as diferentes áreas de atuação não só da empresa em que realiza o estágio mais de todas as outras que formam o cenário como projetistas, fornecedores e prestadores de serviço, pois serão também excelentes oportunidades no futuro.

Uma detalhe importante, não serve de absolutamente nada ser um excelente técnico se não for comprometido, responsável e não souber trabalhar em equipe. Por isso, além da engenharia procure prestar atenção e desenvolver também as outras competências.

Foco no estudo, estágio ou pesquisas?

Esta costuma ser uma dúvida de grande parte dos estudantes de engenharia ao longo do curso. E realmente tem motivo para ser assim, mas vamos tentar organizar as coisas e ajudar no planejamento e tomada de decisão.

Seguindo a cronologia da graduação, a dica seria para focar exclusivamente nos estudos enquanto ainda está no ciclo básico, ou seja, até o término do 4o. período. Eu sei, a ansiedade para aprender “engenharia” é grande e depois de todo o esforço para ingressar na faculdade ainda vai encarar mais 2 anos de Cálculos e Físicas? SIM!

Essa seria basicamente uma avaliação de custo x benefício, onde se você dividir seu tempo do estudo com qualquer outra atividade, essa lhe trará um ganho pouco expressivo, seja técnico ou financeiro, mas o preço que irá pagar pode ser muito alto. O início da faculdade é um momento de transição muito importante onde tudo é diferente da antiga realidade. O ambiente, as cobranças, o volume de matéria e mesmo os conteúdos não se parecem em nada com o já visto até então. Por isso, mantenha o foco nessa etapa para fazer bem feito e não deixar “bombas de retardo“.

Bombas de retardo” são aquelas matérias que você julga de menor importância, normalmente porque não prendem outras e você fica tentado a deixá-las para o final do curso e ir logo para as matérias mais ligadas a engenharia. O problema é que existe grande chance delas explodirem (te reprovarem) no final. Posso atestar que essa não é uma boa ideia. Eu deixei o Cálculo IV para depois, porque não prendia outras matérias, e assim foi ficando. Vieram as matérias mais específicas, os estágios e finalmente chegou o final da graduação e o Cálculo IV ainda estava lá, a minha espera. Resultado, estava eu no último período, estagiando em um grande empreendimento, focado na formatura e na busca do primeiro emprego e tive que encarar o Cálculo IV. Além de nada motivador, já não tinha mais o ritmo dos Cálculos e não havia o menor entrosamento com o restante da turma pois eu era o “dinossauro” que caiu de paraquedas naquela turma, numa situação até meio constrangedora.

Felizmente deu tudo certo e não chegou a prejudicar minha formatura nem minha carreira, mas não foi a medida mais adequada, além o estresse que causou no momento. Não foram poucas as vezes que cheguei a sonhar que não me formava porque havia sido reprovado em Cálculo IV. Ou seja, não recomendo que façam o mesmo e ratifico, foco exclusivo no estudo nesse momento inicial da graduação. Tudo tem seu tempo e terá melhor rendimento acadêmico e profissional desta forma.

As pesquisas acadêmicas são atividades muito interessantes a serem desenvolvidas, principalmente logo após o ciclo básico. Claro que depende muito da oportunidade e do entrosamento com os professores e interesse pela disciplina correlata. São uma excelente oportunidade para além da parte técnica desenvolver outras habilidades como organização, responsabilidade, perseverança, planejamento e principalmente pró-atividade para buscar conhecimento e desenvolver raciocínios sem desistir toda vez que precisar voltar ao ponto de partida e começar tudo novamente. Muitos acabam se identificando tanto com esse perfil que tem neste caminho o horizonte da docência. Outras vezes também pode ser uma porta para o mercado de trabalho em empresas de pesquisas e desenvolvimento.

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A sugestão seria para caso surgir uma oportunidade ou se existir alguma matéria que se identifique bastante, busque essa oportunidade para vivenciar essa experiência e poder avaliar a adequação ao seu perfil.

Já em relação ao estágio, esse é um caminho mais comum até mesmo pelo volume de oportunidades existentes. Como esse assunto foi comentado em outro texto (Não faço ou nunca fiz estágio, e agora?), inclusive comentando quando buscar o estágio, não vou me alongar demais com textos repetitivos.

Cada um deve avaliar seu perfil, suas preferências e também as diversas necessidades e tentar capturar deste texto algo que possa ajudar a definir a melhor solução para seu caso específico.